Acupuntura na Doença de Parkinson: o que diz a ciência

A Doença de Parkinson é uma condição neurológica crónica que afeta sobretudo o movimento — tremor, rigidez, lentidão e alterações do equilíbrio. Com o tempo, a medicação pode não chegar para controlar todos os sintomas, e muitas pessoas procuram abordagens complementares seguras para aliviar queixas e melhorar a qualidade de vida. A acupuntura (ou acupunctura) é uma delas.

Neste artigo reunimos, em linguagem simples, o que a ciência já observou sobre o efeito da acupuntura no Parkinson — com base em estudos de neuroimagem (ressonância magnética funcional, fMRI) e ensaios clínicos. Vamos ver que sintomas podem melhorar, o que muda no cérebro e como esta terapia pode complementar o tratamento convencional.

Importante desde já: a acupuntura não cura a Doença de Parkinson nem substitui a medicação prescrita pelo neurologista. É uma terapia complementar, a integrar num plano de cuidados mais amplo.

Porque falar de acupuntura na Doença de Parkinson?

Os medicamentos dopaminérgicos continuam a ser o pilar do tratamento, mas não controlam todos os sintomas — sobretudo alguns sintomas motores resistentes e as queixas não motoras (fadiga, humor, sono). É aqui que cresce o interesse por terapias integrativas que possam atuar noutros circuitos cerebrais, em complemento à medicação.

O que é a Doença de Parkinson (em linguagem simples)

No Parkinson há uma perda progressiva de neurónios que produzem dopamina, sobretudo numa região do cérebro chamada substância negra. Isso afeta os circuitos que controlam o movimento e traduz-se em:

  • Tremor (sobretudo em repouso)
  • Rigidez muscular
  • Lentidão de movimento (bradicinesia)
  • Alterações da postura e do equilíbrio
  • Sintomas não motores: fadiga, alterações de humor e de sono, entre outros

Como a medicação não explica nem trata todos estes sintomas, faz sentido olhar para abordagens que atuem também noutros mecanismos.

A acupuntura ajuda no tremor e na função motora?

Foi uma das perguntas mais estudadas — e os resultados são encorajadores.

Num ensaio com 41 pessoas com Parkinson e tremor, divididas em acupuntura verdadeira, acupuntura simulada e grupo em espera (todas a tomar levodopa), só o grupo de acupuntura verdadeira teve melhoria significativa nas escalas de atividades do dia a dia (UPDRS II) e motoras (UPDRS III), com redução clara do tremor [2]. A acupuntura simulada e o grupo sem acupuntura não mostraram o mesmo benefício.

Os estudos de neuroimagem ajudam a perceber porquê: a estimulação do ponto GB34 aumentou a atividade em áreas centrais do movimento (como o putamen e o córtex motor), e esse aumento acompanhou a melhoria objetiva do desempenho motor [1][7]. Em palavras simples, a acupuntura parece ajudar a “reativar” circuitos motores que estão menos ativos no Parkinson.

E nos sintomas emocionais e na qualidade de vida?

Numa doença crónica, o bem-estar emocional conta tanto como o movimento. Num estudo de 8 semanas, a acupuntura associou-se a uma redução das pontuações totais da escala UPDRS e a uma diminuição significativa dos sintomas de depressão (escala BDI-II), com efeitos que se mantiveram 8 semanas depois [4]. Em paralelo, observou-se mais atividade em áreas do cérebro ligadas tanto ao movimento como à regulação emocional.

Outros trabalhos sugerem ainda um possível papel da acupuntura no alívio da dor associada ao Parkinson [5], um sintoma frequente e muitas vezes subvalorizado.

Para quem quer saber mais: o que muda no cérebro

Vários estudos de fMRI mostram que a acupuntura modula o circuito cerebelo–tálamo–cortical (CTC) — uma rede importante no tremor e na coordenação — além de áreas dos gânglios da base, tálamo e córtex motor [1][2][3]. Um estudo de 2024, com 50 doentes e 24 pessoas saudáveis, observou que a acupuntura atua de forma diferente consoante o estado do cérebro (doente vs. saudável), o que sugere um efeito modulador, e não apenas um estímulo genérico [3]. A acupuntura no couro cabeludo (escalpe) também mostrou resultados promissores em estudos-piloto sobre atividade motora e cerebral [6].

A acupuntura funciona para além do efeito placebo?

Esta é a pergunta certa a fazer — e a ciência tem uma resposta interessante. Quando se compara acupuntura real com acupuntura “placebo” (agulha que simula a picada sem penetrar o ponto):

  • acupuntura real ativa de forma consistente o putamen, o córtex motor e outros pontos do circuito do movimento, com correlação clara com a melhoria da função [1][7].
  • acupuntura placebo tende a ativar sobretudo áreas ligadas à expectativa, atenção e emoção, sem o mesmo padrão de modulação motora.

Ou seja: há indícios de um efeito específico da acupuntura sobre os circuitos motores, que não se explica apenas por sugestão ou expectativa.

Benefícios e limites — leia antes de decidir

O que os estudos sugerem que a acupuntura pode fazer:

  • Reduzir o tremor e melhorar a função motora, sobretudo integrada com a levodopa [2]
  • Ajudar em sintomas emocionais, como a depressão [4], e possivelmente na dor [5]
  • Modular circuitos cerebrais-chave, o que dá suporte aos efeitos clínicos observados [1][3]

O que é preciso ter em conta:

  • Não substitui a medicação dopaminérgica prescrita pelo neurologista
  • Os estudos têm, em geral, amostras pequenas e protocolos variados (pontos, frequência, duração)
  • A resposta é individual — nem todas as pessoas respondem da mesma forma

Por isso, a acupuntura deve ser vista como terapia complementar, integrada num plano multidisciplinar com neurologia, fisioterapia, exercício, nutrição e acompanhamento psicológico.

Como abordamos a Doença de Parkinson no Centro Medular

Na nossa prática de medicina integrativa, inspiramo-nos nos dados de neuroimagem e nos ensaios clínicos para estruturar protocolos informados pela evidência disponível, sempre adaptados à pessoa:

  • Pontos com evidência em Parkinson e tremor (como GB34, DU20, GB20 e zonas de controlo do tremor), ajustados ao perfil de cada doente.
  • Programas de várias semanas (à semelhança dos protocolos de 8–12 semanas dos estudos), com reavaliação periódica dos sintomas motores, emocionais e funcionais.
  • Articulação com o neurologista assistente e com outras terapias (fisioterapia, exercício terapêutico, treino de equilíbrio).

O objetivo não é “curar” a Doença de Parkinson, mas retardar o impacto funcional, otimizar o controlo de sintomas e melhorar a qualidade de vida, com uma abordagem centrada na pessoa.

Perguntas frequentes

A acupuntura cura a Doença de Parkinson? Não. A acupuntura não reverte a degeneração neuronal. Os estudos mostram melhorias de sintomas e modulação de circuitos cerebrais, mas a doença continua a ser crónica.

Em quanto tempo posso notar melhorias? Nos estudos, alguns efeitos surgem após semanas de tratamento, em protocolos de 8 a 12 semanas, com 1–2 sessões por semana.

A acupuntura é segura no Parkinson? Os estudos analisados não reportaram efeitos adversos graves quando a acupuntura é feita por profissionais qualificados. Os efeitos mais comuns são ligeiros (dor local, pequeno hematoma).

Posso fazer acupuntura se estiver a tomar levodopa? Sim. A maioria dos estudos foi realizada em pessoas medicadas, e há trabalhos que sugerem um efeito complementar sem interferir com a medicação.

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Se tem Doença de Parkinson, ou cuida de alguém com este diagnóstico, e quer perceber se a acupuntura pode integrar o plano de tratamento, fazemos uma avaliação detalhada para desenhar consigo uma estratégia personalizada — sempre em coordenação com o seu neurologista.

No Centro Medular, cuidamos de sistemas — não apenas de sintomas. Integramos ciência, corpo e sistema nervoso para aliviar a dor, reduzir o impacto do stress e devolver função e qualidade de vida.

  1. Chae Y, Lee H, Kim H, Kim CH, Chang DI, Kim KM, Park HJ. Parsing brain activity associated with acupuncture treatment in Parkinson’s disease. Movement Disorders. 2009;24(12):1794–1802. doi:10.1002/mds.22673.
  2. Li Z, Chen J, Cheng J, Huang S, Hu Y, Wu Y, Li G, Liu B, Liu X, Guo W, Huang S, Zhou M, Chen X, Xiao Y, Chen C, Chen J, Luo X, Xu P. Acupuncture modulates the cerebello-thalamo-cortical circuit and cognitive brain regions in patients of Parkinson’s disease with tremor. Frontiers in Aging Neuroscience. 2018;10:206. doi:10.3389/fnagi.2018.00206.
  3. Lee HM, Lee DH, Lee HG, Kwon S, Cho SY, Jung WS, Moon SK, Park JM, Ko CN, Park SU. Functional neural substrates of Parkinson’s disease and potential underpinnings of acute responses to acupuncture stimulation. Neuroscience. 2024;562:148–159. doi:10.1016/j.neuroscience.2024.10.023.
  4. Yeo S, van den Noort M, Bosch P, Lim S. A study of the effects of 8-week acupuncture treatment on patients with Parkinson’s disease. Medicine (Baltimore). 2018;97(50):e13434. doi:10.1097/MD.0000000000013434.
  5. Yu SW, Lin SH, Tsai CC, Chaudhuri KR, Huang YC, Chen YS, et al. Acupuncture effect and mechanism for treating pain in patients with Parkinson’s disease. Front Neurol. 2019;10:1114. doi:10.3389/fneur.2019.01114.
  6. Sun Y, Li L, Chen Y, Wang L, Zhai L, Sheng J, et al. Feasibility and positive effects of scalp acupuncture for modulating motor and cerebral activity in Parkinson’s disease: A pilot study. NeuroRehabilitation. 2022;51(3):467–479. doi:10.3233/NRE-220048.
  7. Yeo S, Choe IH, van den Noort M, Bosch P, Jahng GH, Rosen B, et al. Acupuncture on GB34 activates the precentral gyrus and prefrontal cortex in Parkinson’s disease. BMC Complement Altern Med. 2014;14:336. doi:10.1186/1472-6882-14-336.


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