Primeiros sinais de Parkinson: o que a forma de andar pode revelar anos antes

A doença de Parkinson começa, em regra, muitos anos antes do diagnóstico. Um estudo de 2026 com 73 413 pessoas do UK Biobank mostrou que quem veio a ter Parkinson já andava de forma diferente: dava menos passos, andava mais devagar quando precisava de acelerar e balançava menos os braços. Algumas destas diferenças apareceram até 6,8 anos antes do diagnóstico. Nenhum destes sinais, sozinho, significa Parkinson. Vários sinais em conjunto, que se mantêm no tempo, justificam falar com um profissional de saúde.

Talvez já tenha reparado. O seu pai deixou de balançar um dos braços quando caminha. A sua mãe anda mais devagar e já não acompanha o passo da família. Quase sempre há outra explicação: a idade, uma dor no ombro, o cansaço. Mas é natural que a pergunta apareça. Será o início de alguma coisa?

Este artigo explica o que a ciência sabe hoje sobre os primeiros sinais de Parkinson, o que um estudo recente descobriu sobre a forma de andar e, acima de tudo, quando vale a pena procurar ajuda e quando não vale a pena preocupar-se.

O Parkinson começa antes de se notar

A doença de Parkinson é uma doença neurológica progressiva. Afeta sobretudo o movimento, mas também o sono, o olfato, o intestino e o humor. Em Portugal, estima-se que existam cerca de 180 casos por cada 100 000 habitantes. A Sociedade Portuguesa de Neurologia aponta para 18 a 20 mil pessoas com a doença.

Quando surgem o tremor ou a lentidão que levam ao diagnóstico, o processo já está em curso há anos. Os investigadores chamam a esta fase Parkinson prodrómico: o período em que existem alterações subtis mas ainda não há sinais suficientes para um diagnóstico. Detetá-la mais cedo é hoje uma das grandes prioridades da investigação, sobretudo à medida que se estudam tratamentos que possam abrandar a doença.

O que mostrou o novo estudo sobre a forma de andar

Uma equipa australiana da University of New South Wales publicou em 2026, no Journal of Neural Transmission, uma análise com dados do UK Biobank. Entre 2013 e 2015, 73 413 adultos usaram durante uma semana um sensor de movimento no pulso, parecido com uma pulseira de fitness, enquanto faziam a sua vida normal. Depois, os investigadores seguiram estas pessoas durante até 10 anos através dos registos clínicos. Nesse período, 314 foram diagnosticadas com Parkinson.

Dos 17 indicadores da marcha que analisaram, cinco distinguiram de forma consistente quem veio a ter a doença:

SinalO que mudouQuão cedo foi detetado
Menos passos por dia4 043 a 5 585 passos/dia, contra 6 370 nas pessoas que não tiveram a doença (menos 785 a 2 327 passos)A diferença aumentava à medida que o diagnóstico se aproximava
Velocidade máxima mais baixaAndavam mais devagar quando precisavam de acelerarAté 6,8 anos antes
Menos balanço dos braçosMais tempo a andar com os braços parados, à frente do corpoAté 6,8 anos antes, o sinal mais precoce segundo os autores
Ritmo dos passos mais uniformePassos mais “certos”, com menos adaptação naturalVários anos antes
Padrão de caminhadas diferenteOutra proporção entre percursos curtos e caminhadas com mais de um minuto seguidoSobretudo nos anos mais próximos do diagnóstico

O menor balanço dos braços não é uma surpresa para quem trabalha com Parkinson. É dos sinais motores clássicos da doença e costuma começar de um só lado. A novidade está em ter sido medido por um aparelho comum, na vida real e tantos anos antes.

O que o estudo não diz

Este estudo não mostra que um relógio inteligente consegue diagnosticar Parkinson. As diferenças são médias de grupo, muitas delas pequenas, e não permitem prever o que vai acontecer a uma pessoa concreta. Os próprios autores apontam limitações importantes:

  • os diagnósticos vieram de registos eletrónicos e não de uma avaliação neurológica;
  • cada pessoa foi avaliada uma única semana;
  • os participantes do UK Biobank tendem a ser mais saudáveis do que a população em geral;
  • não havia dados sobre dor, medicação ou uso de bengala, que também alteram a forma de andar.

Outros sinais precoces a que vale a pena estar atento

A marcha é só uma peça. A Movement Disorder Society, que define os critérios de investigação para o Parkinson prodrómico, e a Parkinson’s Foundation apontam outros sinais que podem surgir anos antes do diagnóstico:

  • Agitação durante o sono: falar, gritar, dar pontapés ou socos enquanto se sonha. Chama-se perturbação do comportamento do sono REM. Quando confirmada em exame de sono, é o sinal clínico que mais aumenta a probabilidade de Parkinson.
  • Perda de olfato, sem causa aparente como constipação ou sinusite.
  • Obstipação persistente.
  • Voz mais baixa e letra mais pequena.
  • Tonturas ao levantar-se.
  • Rosto menos expressivo, postura mais curvada ou um tremor ligeiro em repouso.
  • Depressão ou ansiedade de novo, sonolência durante o dia.

Atenção a um ponto importante: quase todos estes sinais são comuns e têm outras causas. A maioria das pessoas com obstipação ou com menos olfato nunca vai ter Parkinson. O que chama a atenção dos médicos é a combinação de vários sinais que se mantêm ao longo do tempo.

Quando deve procurar um médico?

A Parkinson’s Foundation dá uma regra simples: um sinal isolado não é motivo de preocupação. Se notar mais do que um destes sinais, em si ou num familiar, e se se mantiverem durante semanas ou meses, marque uma consulta.

O primeiro passo é marcar consulta connosco, para despiste. Não existe uma análise ao sangue que confirme o Parkinson. O diagnóstico continua a ser clínico: assenta na história e num exame neurológico feito por um médico experiente.

E o meu smartwatch? Devo confiar nos números?

Os números do seu relógio são úteis para acompanhar a sua atividade, e só isso. Uma semana com menos passos diz mais sobre a chuva, o trabalho ou uma dor no joelho do que sobre o seu cérebro. Estudos como este apontam para um futuro em que sensores simples ajudem a identificar quem deve ser avaliado mais cedo.

Porque é que o movimento importa tanto, antes e depois do diagnóstico

No Centro Medular, acreditamos que o movimento é o que nos mantém independentes: é o que nos deixa ir ao café sozinhos, brincar com os netos ou subir as escadas de casa sem pensar nisso. É também por isso que a forma como andamos diz tanto sobre a nossa saúde.

Para quem já tem Parkinson, a evidência é clara: o exercício e a fisioterapia fazem diferença. Uma meta-análise de 2020, com 191 ensaios clínicos e quase 8 000 participantes, mostrou que praticamente todas as modalidades de fisioterapia estudadas melhoram a marcha. A evidência é mais forte para o treino em passadeira e o treino de estratégias. O equilíbrio melhorou com dança, artes marciais como o tai chi, marcha nórdica, exercício aeróbio, treino de equilíbrio e marcha e hidroterapia. A Guideline Europeia de Fisioterapia na Doença de Parkinson continua a ser a principal referência para orientar este trabalho. 

Uma avaliação da marcha e do equilíbrio permite perceber onde está a pessoa, o que está a mudar e que tipo de exercício faz mais sentido para ela.

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Perguntas frequentes

Quais são os primeiros sinais de Parkinson?

Podem surgir anos antes do diagnóstico e incluem agitação durante o sono (falar ou dar pontapés enquanto se sonha), perda de olfato, obstipação, voz mais baixa, letra mais pequena, menos balanço de um braço ao andar e lentidão nos movimentos. Isolados, são comuns e raramente significam Parkinson.

A forma de andar pode indicar Parkinson?

Pode dar pistas. Um estudo de 2026 com mais de 73 000 pessoas mostrou que quem veio a ter Parkinson dava menos passos, andava mais devagar e balançava menos os braços, em alguns casos até 6,8 anos antes do diagnóstico. São diferenças médias de grupo e não servem para diagnosticar uma pessoa.

Um smartwatch consegue detetar Parkinson?

Não, pelo menos por enquanto. Os sensores de pulso registam alterações subtis na marcha, mas nenhum relógio está validado para diagnosticar ou prever Parkinson. O diagnóstico é feito por um médico.

Quanto tempo antes do diagnóstico começam os sinais?

Os investigadores estimam que a fase prodrómica dure vários anos. No estudo sobre a marcha, as alterações nos braços e na velocidade máxima foram detetadas até 6,8 anos antes do diagnóstico.

A fisioterapia ajuda na doença de Parkinson?

Sim. Uma meta-análise de 191 ensaios clínicos mostrou que a fisioterapia e o exercício melhoram a marcha, o equilíbrio e os sintomas motores em pessoas com Parkinson.


Revisão clínica: Catarina Pereira

Este artigo tem fins informativos e não substitui uma consulta médica.

Referências

  1. Pelicioni P. et al. Real-world gait changes preceding Parkinson’s disease diagnosis in a population-scale UK Biobank cohort. Journal of Neural Transmission, 2026. https://doi.org/10.1007/s00702-026-03256-3
  2. Heinzel S. et al. Update of the MDS research criteria for prodromal Parkinson’s disease. Movement Disorders, 2019;34(10):1464–1470. https://doi.org/10.1002/mds.27802
  3. Ferreira J.J. et al. Prevalence of Parkinson’s disease: a population-based study in Portugal. European Journal of Neurology, 2017. https://doi.org/10.1111/ene.13273
  4. Radder D.L.M. et al. Physiotherapy in Parkinson’s Disease: A Meta-Analysis of Present Treatment Modalities. Neurorehabilitation and Neural Repair, 2020. https://doi.org/10.1177/1545968320952799
  5. Keus S. et al. European Physiotherapy Guideline for Parkinson’s Disease. KNGF/ParkinsonNet, 2014. https://www.parkinsonnet.nl/app/uploads/sites/3/2019/11/eu_guideline_parkinson_guideline_for_pt_s1.pdf
  6. Parkinson’s Foundation. 10 Early Signs of Parkinson’s Disease. https://www.parkinson.org/understanding-parkinsons/10-early-signs
  7. Parkinson’s Foundation. Walking Changes May Appear Years Before Parkinson’s. https://www.parkinson.org/blog/science-news/walking-changes-before-parkinsons
  8. Sociedade Portuguesa de Neurologia. Doença de Parkinson afeta entre 18 a 20 mil pessoas em Portugal. https://www.spneurologia.com/noticias/doenca-de-parkinson-afeta-entre-18-a-20-mil-pessoa/51
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