Acupuntura para a enxaqueca: funciona mesmo? Isto é o que a ciência já sabe

O que é, afinal, a acupuntura — e o que ela não é

Imagine o seu sistema nervoso como uma central telefónica antiga, cheia de linhas. Quando tem enxaqueca, algumas dessas linhas ficam em sobrecarga e passam a disparar sinais de dor com demasiada facilidade. A acupuntura, na leitura da medicina moderna, funciona um pouco como quem entra nessa central e ajuda a reorganizar o tráfego.

Do ponto de vista fisiológico, a inserção de agulhas finas em pontos específicos parece estimular a libertação de substâncias analgésicas produzidas pelo próprio corpo — nomeadamente endorfinas — e modular a forma como o sistema nervoso central processa a dor. Não é crença. São mecanismos observáveis, alguns deles documentados em estudos de neuroimagem.

O que a acupuntura não é: não é um substituto para o diagnóstico médico. Uma dor de cabeça nova, intensa e diferente de tudo o que sentiu antes deve ser sempre avaliada por um médico. A acupuntura entra depois, no território das dores recorrentes e já caracterizadas.

A pergunta que interessa: o que dizem os estudos?

Aqui vale a pena ser rigoroso. Quando um tratamento é estudado a sério, os investigadores comparam-no com duas coisas: com nada (ou com o tratamento habitual) e com uma acupuntura de simulação (sham acupuncture) — agulhas colocadas superficialmente ou em pontos “errados”, para perceber quanto do efeito é real e quanto é expectativa.

A revisão de referência é da Cochrane, a organização independente que resume a melhor evidência médica do mundo e que não tem interesse comercial em nenhum tratamento. Em 2016, a Cochrane analisou 22 ensaios clínicos, com quase 5000 participantes, sobre acupuntura na prevenção da enxaqueca. As conclusões foram claras o suficiente para mudar guidelines internacionais.

O que encontraram, em números que se percebem à primeira leitura:

ComparaçãoResultado (frequência das crises reduzida para metade)Grau de evidência
Acupuntura vs. acupuntura simulada50% dos doentes com acupuntura real vs. 41% com simulaçãoModerado
Acupuntura vs. medicação preventiva (3 meses)57% com acupuntura vs. 46% com medicaçãoModerado
Acupuntura vs. medicação preventiva (6 meses)59% vs. 54%Moderado

A acupuntura foi pelo menos tão eficaz quanto os medicamentos preventivos habituais — como o propranolol, o topiramato ou o valproato — na redução da frequência das enxaquecas. E teve uma vantagem que qualquer pessoa que já tomou profiláticos vai reconhecer: muito menos efeitos secundários.

E as cefaleias de tensão — aquela dor “em capacete”?

Sabe aquela sensação de aperto, como se tivesse uma banda a apertar-lhe a cabeça ao fim de um dia longo? É a cefaleia de tensão, a dor de cabeça mais comum de todas. E aqui a evidência é, se calhar, ainda mais direta.

A mesma equipa da Cochrane analisou 12 ensaios com cerca de 2350 adultos. Entre quem recebeu acupuntura, 51% teve pelo menos metade das dores de cabeça, contra 43% no grupo de simulação. Mais impressionante: quando a acupuntura foi acrescentada aos cuidados habituais, 48 em cada 100 pessoas viram as suas dores reduzidas para metade — contra apenas 17 em 100 que mantiveram só o tratamento habitual.

A conclusão dos autores foi que a acupuntura é eficaz no tratamento das cefaleias de tensão frequentes ou crónicas.

Não é só a Cochrane a dizê-lo

Uma coisa é um estudo. Outra é quando as instituições que definem a prática clínica mudam as suas recomendações por causa dele.

NICE, o organismo britânico que estabelece as normas de tratamento do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido — e uma das referências mais exigentes do mundo — recomenda considerar até 10 sessões de acupuntura ao longo de 5 a 8 semanas para a prevenção da cefaleia de tensão crónica. E, para a enxaqueca, recomenda a acupuntura como opção quando os medicamentos preventivos habituais não resultaram, não foram tolerados ou não são adequados.

Reparou no detalhe? Não é um panfleto de uma clínica. É uma autoridade de saúde pública, sem nada a ganhar, a colocar a acupuntura no protocolo. Revisões mais recentes, publicadas em 2025, continuam a confirmar melhorias na frequência das crises e na qualidade de vida — embora, como é próprio da boa ciência, também apareçam estudos com resultados mais modestos. A evidência não é unânime a 100%. Mas a direção geral é consistente.

Então quantas sessões? E dói?

Quantas sessões. Um plano típico, alinhado com o que os estudos e as guidelines usam, ronda as 6 a 10 sessões ao longo de 6 a 8 semanas, geralmente uma por semana. Muitas pessoas começam a notar diferença por volta da terceira ou quarta sessão. Não é um comprimido que se toma numa crise — é um trabalho de fundo, de reorganização cortical.

Dói. As agulhas de acupuntura são finíssimas, nada comparável a uma agulha de injeção. A maioria das pessoas sente uma picada mínima ou nem isso, seguida por vezes de uma sensação de peso ou formigueiro no ponto — o que costuma ser interpretado como sinal de que o ponto está a responder. É, para a esmagadora maioria, um procedimento confortável.

É seguro?

Quando realizada por um profissional com formação adequada e material esterilizado descartável, a acupuntura é considerada segura, com uma taxa muito baixa de efeitos adversos. Os mais frequentes são ligeiros e passageiros: um pequeno hematoma, ligeira dor no local, ocasionalmente uma sensação de tontura. Complicações sérias são raras e associam-se, quase sempre, a práticas sem formação.

Em Portugal, a acupuntura é uma terapêutica não convencional regulamentada. Só pode ser exercida por profissionais com cédula profissional emitida pela ACSS (Administração Central do Sistema de Saúde). Verificar esta credencial é o primeiro filtro de segurança de qualquer doente — e algo que uma clínica séria faz questão de mostrar.

Para quem faz sentido — e para quem talvez não

A acupuntura tende a fazer sentido para si se:

  • tem enxaquecas ou cefaleias de tensão frequentes e quer reduzir a sua frequência;
  • a medicação preventiva não resultou, ou causou efeitos secundários que não tolera;
  • prefere uma abordagem com poucos efeitos indesejados, integrada com o resto do seu tratamento;
  • procura complementar — e não substituir às cegas — o acompanhamento médico.

Uma nota final, de quem lida com isto todos os dias

A enxaqueca rouba dias. Rouba jantares, reuniões, fins de semana com os filhos. Quem a vive não precisa de promessas milagrosas — precisa de opções reais, avaliadas com seriedade. A acupuntura é uma dessas opções, das melhor estudadas dentro das terapêuticas integrativas, e vale a pena colocá-la em cima da mesa numa conversa informada com um profissional.

No Centro Medular, a acupuntura não vive isolada. Integra-se numa avaliação global, ao lado da medicina, da fisioterapia e da nutrição, porque uma dor de cabeça recorrente raramente tem uma causa única.

Perguntas frequentes (FAQ)

A acupuntura funciona mesmo para a enxaqueca? Sim, com evidência de grau moderado. A revisão Cochrane de 2016 (22 ensaios, quase 5000 participantes) mostrou que a acupuntura reduz a frequência das crises de enxaqueca de forma pelo menos comparável à dos medicamentos preventivos habituais, com menos efeitos secundários.

Quantas sessões de acupuntura são precisas para as dores de cabeça? Um plano típico envolve 6 a 10 sessões ao longo de 5 a 8 semanas, geralmente uma por semana. Muitas pessoas notam melhorias a partir da terceira ou quarta sessão.

A acupuntura é melhor do que a medicação para a enxaqueca? Nos estudos, foi pelo menos tão eficaz quanto a medicação preventiva na redução da frequência das crises, com a vantagem de causar menos efeitos adversos. A escolha depende de cada caso e deve ser discutida com o profissional.

A acupuntura serve para as cefaleias de tensão? Sim. A revisão Cochrane concluiu que a acupuntura é eficaz na prevenção das cefaleias de tensão frequentes ou crónicas. O NICE recomenda até 10 sessões ao longo de 5 a 8 semanas.

A acupuntura dói ou tem efeitos secundários? As agulhas são muito finas e a maioria das pessoas sente pouco ou nenhum desconforto. Os efeitos adversos são ligeiros e raros — pequenos hematomas ou dor passageira no local. É segura quando realizada por profissional credenciado.

A acupuntura está regulamentada em Portugal? Sim. É uma terapêutica não convencional regulamentada, exercida apenas por profissionais com cédula profissional emitida pela ACSS.

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