A Doença de Parkinson é uma condição neurológica crónica que afeta sobretudo o movimento — tremor, rigidez, lentidão e alterações do equilíbrio. Com o tempo, a medicação pode não chegar para controlar todos os sintomas, e muitas pessoas procuram abordagens complementares seguras para aliviar queixas e melhorar a qualidade de vida. A acupuntura (ou acupunctura) é uma delas.
Neste artigo reunimos, em linguagem simples, o que a ciência já observou sobre o efeito da acupuntura no Parkinson — com base em estudos de neuroimagem (ressonância magnética funcional, fMRI) e ensaios clínicos. Vamos ver que sintomas podem melhorar, o que muda no cérebro e como esta terapia pode complementar o tratamento convencional.
Importante desde já: a acupuntura não cura a Doença de Parkinson nem substitui a medicação prescrita pelo neurologista. É uma terapia complementar, a integrar num plano de cuidados mais amplo.
Os medicamentos dopaminérgicos continuam a ser o pilar do tratamento, mas não controlam todos os sintomas — sobretudo alguns sintomas motores resistentes e as queixas não motoras (fadiga, humor, sono). É aqui que cresce o interesse por terapias integrativas que possam atuar noutros circuitos cerebrais, em complemento à medicação.
No Parkinson há uma perda progressiva de neurónios que produzem dopamina, sobretudo numa região do cérebro chamada substância negra. Isso afeta os circuitos que controlam o movimento e traduz-se em:
Como a medicação não explica nem trata todos estes sintomas, faz sentido olhar para abordagens que atuem também noutros mecanismos.
Foi uma das perguntas mais estudadas — e os resultados são encorajadores.
Num ensaio com 41 pessoas com Parkinson e tremor, divididas em acupuntura verdadeira, acupuntura simulada e grupo em espera (todas a tomar levodopa), só o grupo de acupuntura verdadeira teve melhoria significativa nas escalas de atividades do dia a dia (UPDRS II) e motoras (UPDRS III), com redução clara do tremor [2]. A acupuntura simulada e o grupo sem acupuntura não mostraram o mesmo benefício.
Os estudos de neuroimagem ajudam a perceber porquê: a estimulação do ponto GB34 aumentou a atividade em áreas centrais do movimento (como o putamen e o córtex motor), e esse aumento acompanhou a melhoria objetiva do desempenho motor [1][7]. Em palavras simples, a acupuntura parece ajudar a “reativar” circuitos motores que estão menos ativos no Parkinson.
Numa doença crónica, o bem-estar emocional conta tanto como o movimento. Num estudo de 8 semanas, a acupuntura associou-se a uma redução das pontuações totais da escala UPDRS e a uma diminuição significativa dos sintomas de depressão (escala BDI-II), com efeitos que se mantiveram 8 semanas depois [4]. Em paralelo, observou-se mais atividade em áreas do cérebro ligadas tanto ao movimento como à regulação emocional.
Outros trabalhos sugerem ainda um possível papel da acupuntura no alívio da dor associada ao Parkinson [5], um sintoma frequente e muitas vezes subvalorizado.
Para quem quer saber mais: o que muda no cérebro
Vários estudos de fMRI mostram que a acupuntura modula o circuito cerebelo–tálamo–cortical (CTC) — uma rede importante no tremor e na coordenação — além de áreas dos gânglios da base, tálamo e córtex motor [1][2][3]. Um estudo de 2024, com 50 doentes e 24 pessoas saudáveis, observou que a acupuntura atua de forma diferente consoante o estado do cérebro (doente vs. saudável), o que sugere um efeito modulador, e não apenas um estímulo genérico [3]. A acupuntura no couro cabeludo (escalpe) também mostrou resultados promissores em estudos-piloto sobre atividade motora e cerebral [6].
Esta é a pergunta certa a fazer — e a ciência tem uma resposta interessante. Quando se compara acupuntura real com acupuntura “placebo” (agulha que simula a picada sem penetrar o ponto):
Ou seja: há indícios de um efeito específico da acupuntura sobre os circuitos motores, que não se explica apenas por sugestão ou expectativa.
Benefícios e limites — leia antes de decidir
O que os estudos sugerem que a acupuntura pode fazer:
- Reduzir o tremor e melhorar a função motora, sobretudo integrada com a levodopa [2]
- Ajudar em sintomas emocionais, como a depressão [4], e possivelmente na dor [5]
- Modular circuitos cerebrais-chave, o que dá suporte aos efeitos clínicos observados [1][3]
O que é preciso ter em conta:
- Não substitui a medicação dopaminérgica prescrita pelo neurologista
- Os estudos têm, em geral, amostras pequenas e protocolos variados (pontos, frequência, duração)
- A resposta é individual — nem todas as pessoas respondem da mesma forma
Por isso, a acupuntura deve ser vista como terapia complementar, integrada num plano multidisciplinar com neurologia, fisioterapia, exercício, nutrição e acompanhamento psicológico.
Na nossa prática de medicina integrativa, inspiramo-nos nos dados de neuroimagem e nos ensaios clínicos para estruturar protocolos informados pela evidência disponível, sempre adaptados à pessoa:
O objetivo não é “curar” a Doença de Parkinson, mas retardar o impacto funcional, otimizar o controlo de sintomas e melhorar a qualidade de vida, com uma abordagem centrada na pessoa.
A acupuntura cura a Doença de Parkinson? Não. A acupuntura não reverte a degeneração neuronal. Os estudos mostram melhorias de sintomas e modulação de circuitos cerebrais, mas a doença continua a ser crónica.
Em quanto tempo posso notar melhorias? Nos estudos, alguns efeitos surgem após semanas de tratamento, em protocolos de 8 a 12 semanas, com 1–2 sessões por semana.
A acupuntura é segura no Parkinson? Os estudos analisados não reportaram efeitos adversos graves quando a acupuntura é feita por profissionais qualificados. Os efeitos mais comuns são ligeiros (dor local, pequeno hematoma).
Posso fazer acupuntura se estiver a tomar levodopa? Sim. A maioria dos estudos foi realizada em pessoas medicadas, e há trabalhos que sugerem um efeito complementar sem interferir com a medicação.
Se tem Doença de Parkinson, ou cuida de alguém com este diagnóstico, e quer perceber se a acupuntura pode integrar o plano de tratamento, fazemos uma avaliação detalhada para desenhar consigo uma estratégia personalizada — sempre em coordenação com o seu neurologista.
No Centro Medular, cuidamos de sistemas — não apenas de sintomas. Integramos ciência, corpo e sistema nervoso para aliviar a dor, reduzir o impacto do stress e devolver função e qualidade de vida.
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